Não poderíamos encerrar as atividades desta etapa do projeto de
maneira mais satisfatória. Descobrimos um povo animado e sedento de cultura
popular, além de causos mil pra ouvir e contar a respeito da história, arte e
religiosidade que fazem parte do imaginário Ararense.
Esculturas de Araras na praça central da cidade |
No sábado (12/11) chegamos para almoçar na cidade e logo após nos
aprontamos para seguir ao local dos eventos que precisou de adaptações para
montagem de nossos equipamentos. À noite, com tudo pronto, aguardamos o público
chegar. E não demorou muito além do horário marcado, o centro da rua se encheu
de pessoas ansiosas por cultura popular.
O convidado mestre Vaval levou o babau clássico para o povo e empolgou
a todos com suas passagens divertidíssimas, levantou a galera e ainda emocionou
ao final quando homenageou a seu pai e grande mestre Joaquim Guedes.
Pressentimos que a documentação da cultura popular local nos reservaria coisas
boas quando soubemos que a cidade já deteve o Teatro Oliveira Cruz e do
pioneirismo de Seu Tarcísio de Dão que dirigia peças de teatro e, na década de
70, criou uma engenhoca de presépio natalino onde as personagens interagiam e
se movimentavam em cenários criados por ele.
Interação do Mestre Vaval com as crianças |
A manhã do domingo (13/11) começou cedo pra nossa equipe. Após uma
noite linda, seguimos rumo aos registros das manifestações culturais que o
município nos havia reservado. Saímos encantados com o capricho que Seu Manoel
Pereira Duarte dedicou à arte de confeccionar tarrafas (rede de pesca), despertado através de
um sobrinho, e hoje é um dos poucos que persevera no trançado do nylon com o
auxílio de palhetas, chumbada nas bordas e uma corda no centro que auxilia no
arremesso e recolhimento da peça durante a pesca em rios ou açudes.
Um trabalho que dura em média de trinta a quarenta dias e se encontra ameaçado
pelo pouco interesse da juventude em manter a tradição, além da seca que afeta
várias regiões do Estado e torna precária a pesca em açudes e rios praticamente
vazios.
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Seu Manoel apresentando sua tarrafa |
A grata surpresa ficou por conta do Padre Gaspar Rafael Nunes da Costa
que, para além da função sacerdotal, adotou o papel de incentivador da cultura
popular. Iniciou no município de Araçagi a organização de cavalgadas,
despertada pelo interesse em resgatar suas memórias de infância e laços
familiares bonitos constituídos na zona rural com seu pai que era criador de
cavalos e gados. Em Arara, além da cavalgada, o padre já realizou o festival de
violeiros, incentivado pela importância do violeiro e repentista do município –
José Alves da Cruz, grande representante desta arte no século passado pela
região.
Ficamos emocionados ao ouvir do padre que os elementos da cultura
popular são introduzidos dentro de algumas funções do sacerdote, quando durante
a missa ou orações os cavaleiros fazem as leituras ou transportam as imagens de
santos, bandeiras e até mesmo os aboiadores fazem composições enaltecendo a
cultura e religiosidade. Além disto, nos confessou acompanhar brincantes de
babau pelas zonas rurais onde passou e inclusive repassava temas para um deles
que criava passagens religiosas para catequização de crianças através dos
bonecos do babau.
Nossa equipe com o Pe Gaspar e Ivonete durante as gravações |
Não paramos por aqui, seguimos rumo aos registros históricos. Das
gravações, passamos pelo prédio que foi silo (destinado a armazenamento de produção agrícola local) décadas atrás. Conhecemos o famoso açude do município que, de tanta estória
pra contar, nos pareceu até encantado, seja pelos contos da existência de uma
cobra gigante que amedrontava a população, quanto por almas de mortos por
afogamento que vagavam pelas redondezas. Mas o mais famosos deles era de que a
área tornou-se cemitério de fetos ou recém-nascidos de prostitutas que
trabalhavam num cabaré às margens do açude, pois a cafetina e dona do bordel
não aceitava que engravidassem, considerava que era perigoso para o
negócio e desvalorizava o serviço.
Antigo silo do município |
Adentramos a tarde domingueira visitando o Memorial Padre Ibiapina,
área encantadora que conserva museu, casa, vila, anfiteatro, auditório, igreja,
artesanato e muito sobre a rica história desse incentivador do desenvolvimento
da cidade e de sua cultura popular. Sentimos de perto o pulsar da religiosidade
e devoção de artesãs que se orgulham do que produzem e do significado deste
espaço para a economia local.
Visita ao Memorial Pe Ibiapina |
Quando pensávamos em concluir satisfatoriamente esta etapa das ações
por lá, eis que a noite nos agraciou com um mega público que lotou uma das
principais ruas da cidade. O trânsito parou minha gente! A Cia Boca de Cena
apresentou o espetáculo Colcha de Retalhos para gente de todas as gerações.
Desde Seu Lolô Careca que no alto dos seus mais de sessenta anos, parecia um
menino relembrando sua época de artista popular quando dançava com boneca, tocava guitarra sem cordas e era guardador de cerca de circo, até uma criançada atenta e muito feliz com tudo que estavam
vivenciando. Foi gratificante receber o reconhecimento do público ao final e
ouvir: “Isso aqui foi histórico! Nunca me diverti tanto na minha vida!”.
Rua superlotada para assistir ao espetáculo |
Com patrocínio do Governo do Estado da Paraíba pelo FIC - Fundo de Incentivo à Cultura Augusto dos Anjos e apoio cultural da Prefeitura Municipal de Arara encerramos mais uma etapa de circulação do projeto Bendito e João Redondo pelas ruas da cidade realizado pela Cia Boca de Cena e com a certeza de que em breve retornaremos. Obrigado ao público, parceiros, bonequeiros e equipe. Até breve!
Equipe do projeto
Direção Geral - Artur Leonardo
Diretora de Pesquisa e Produção - Amanda Viana
Coordenação Financeira - Humberto Dias
Coordenação de Palco - José Valério
Assistente de Comunicação - Anderson Santana
Direção Geral - Artur Leonardo
Diretora de Pesquisa e Produção - Amanda Viana
Coordenação Financeira - Humberto Dias
Coordenação de Palco - José Valério
Assistente de Comunicação - Anderson Santana