Antes da visita a Sede da Cia marcamos uma reunião com o Professor Marcos e lhe pedimos ajuda, na tentativa que o mesmo nos ensinasse a trabalhar melhor com seus alunos, pois nunca tínhamos tido qualquer vivência com este público específico. Ele então, nos deu algumas dicas em relação as apresentações teatrais:
·
Ao
entrar em cena descreva o personagem, diga quem é você, como se veste, a cor do
cabelo, sua altura, etc.
·
Fale
pausadamente e, ao sair de cena, diga que saiu e para onde vai;
·
Evite
silenciar, explique e descreva.
Enfim o dia da visita chegou e, nessa época
(por volta de 2003), participavam da Cia Boca de Cena Artur Leonardo,
Amanda Viana e Grace Matias, mas estavam presentes naquele momento apenas Artur
e Amanda.
O grupo de
visitantes era formado por crianças, adolescentes e adultos todos estudantes do
Instituto dos Cegos da Paraíba – Adalgisa Cunha.
Como fizemos
Primeiro
fizemos uma vivência sensorial por toda a exposição, onde os alunos puderam tocar nos bonecos expostos, ouvindo as explicações de Artur sobre as formas de confecção,
as origens e as formas de manipulação de cada peça tocada.
Logo após, levamos o grupo à frente de nossa tenda (teatro/empanada) e fizemos uma breve explicação sobre o que eles
iriam “assistir”. Entramos na empanada e começamos o espetáculo seguindo as
orientações do Prof. Marcos sobre a nossa “audiodescrição”.
Ao final do
espetáculo, saímos com os bonecos em nossas mãos e nos dispusemos em frente à
empanada para que cada pessoa, uma por uma, pudesse tocar nas personagens que
fizeram parte da história e também na tenda, identificando o espaço, altura
e textura do material. Terminada esta etapa, sentamos em círculo e conversamos
sobre toda vivência coletiva.
2ª Experiência
Anos depois
repetimos esta mesma atividade indo ao Instituto, ou seja, o teatro foi ao encontro dos alunos e o objetivo dessa vez foi trabalhar o teatro de bonecos dentro do espaço físico compartilhado por crianças cegas.
Ao chegarmos ao local a euforia foi enorme, a
expectativa do reencontro era grande para ambas as partes, que também era alimentada pela curiosidade de alguns alunos em conhecer o pequeno Gabriel, pois da primeira vez
eu (Amanda) estava grávida e eles lembraram dessa situação e queriam conhecer a criança, que foi acarinhada e incluída naturalmente ao meio das crianças do Instituto.
Já em relação ao trabalho a ser realizado, neste além do espetáculo teatral apresentamos aos alunos o processo de confecção dos bonecos, fazendo com que eles vivenciassem todo o processo de preparação da matéria prima e confecção de um boneco propriamente dito.
Eles participaram do passo a passo da confecção de um boneco e em seguida, assistiram a uma apresentação de teatro de bonecos com “audiodescrição de improviso teatral”.
O que sentimos
Para nós, a primeira experiência foi um
tanto quanto nervosa, inicialmente não sabíamos se estávamos fazendo certo e se
eles estavam realmente entendendo o que queríamos dizer e passar, éramos muito
jovens e a insegurança natural para equipe
Contudo as duas ações nos fizeram compreender melhor as pessoas cegas, suas necessidades e principalmente as dificuldades de comunicação existentes entre as pessoas que possuem visão e as que não possuem.
No âmbito técnico aprendemos muito sobre a importância do ouvir e do
preenchimento sonoro em uma ação dramática, pois as cenas que tinham efeitos, sons,
músicas e palavras proporcionaram uma melhor compreensão por parte do público. Além
disso, o que eles conseguiram perceber em relação às pessoas que enxergavam foi
fantástico, pequenos detalhes como entradas corridas e lentidão de falas tinham
sentidos novos e bem mais fortes.
Tocar, sentir, ouvir e imaginar
No último dia 19 de Agosto de 2015 realizamos mais uma ação junto ao Instituto dos Cegos da Paraíba, ampliamos a atividade e convidamos outros artistas de teatro para participarem, numa tentativa de discutirmos e trocarmos experiência sobre acessibilidade na cultura.
Assim que
recebemos o convite fomos à Instituição conversar com os dirigentes e fazer o
reconhecimento do espaço, identificamos algumas mudanças estruturais e
administrativas, mas tudo fluía muito tranquilo, o Prof. Marcos Lima continua à
frente de algumas ações e agora coordena o Ponto de Cultura no qual o espaço
também se transformou.
Conversamos
com todos e organizamos a atividade em três ações: Vivência sensitiva,
apresentação teatral e roda de conversa com a equipe Boca de Cena, professores,
alunos e convidados.
Enquanto
tudo ia se organizando, passei a pesquisar sobre os grupos de teatro paraibano
que tivessem afinidade com esta prática de trabalho, foi quando lembrei que no
edital Myriam Muniz de Teatro, Funarte/MINC 2014 previa um plano de
acessibilidade e o Grupo de Teatro Osfodidário tinha sido selecionado.
Encontrei no
blog do grupo um texto e fotos sobre o projeto “Sons e Sentidos: Circulação do
Espetáculo Quincas”, onde eles propõem uma vivência sensitiva com pessoas cegas
(http://osfodidario.blogspot.com.br/).
Resolvi entrar em contato com Ana, uma das integrantes do grupo, e convidei-a
para participar de nossa ação.
Na Cia Boca
de Cena passamos a planejar a parte didática de nossa atividade. Eu, Artur,
Thaisy e Valério separamos matéria-prima, bonecos, massa de papier maché e tudo que iríamos precisar
ou, pelo menos, achávamos que iríamos usar.
No dia 19 de
Agosto, às 9h30, demos início ao processo. Com a ajuda dos professores do
Instituto, levamos os alunos para uma sala (que tinha sido preparada
antecipadamente para recebê-los), com cadeiras em organização circular, mesa
com material a ser explorado no centro, tenda de bonecos em posição frontal e a
sala com uma caixa de som na lateral.
Os
dirigentes falaram sobre a importância da atividade, da parceria com a Cia Boca
de Cena e em seguida começamos.
A turma de alunos participantes tinha
uma faixa etária mista, de criança a idosos e isso dificultou um pouco, pois o
tempo de cada um na experimentação era diferente. Sentimos que as crianças
precisavam de mais tempo e sensações de medo, euforia e curiosidade se
misturavam a cada elemento tocado.
O Professor Marcos nos sugeriu que
adiantássemos o processo, fazendo a vivência tátil da matéria prima com todas
as crianças e escolhendo apenas alguns adultos para essa parte do trabalho.
Depois pegamos algumas personagens da
história que ia ser apresentada e colocamos em nossas mãos (com ajuda dos
professores), passando por todos os presentes, falando e descrevendo quem eram
aquelas figuras.
Terminada esta etapa, entramos na
tenda e começamos a apresentação do espetáculo e dessa vez, com mais
experiência nos áudios, descrevemos melhor e tudo funcionou perfeitamente. Afirmamos
isto pela incrível interação de todos, pois o trabalho de vivência anterior à
apresentação possibilitou um melhor entendimento e reconhecimento das
personagens por parte do público.
Ao final saímos da empanada e
trouxemos ao público três personagens que eles ainda não tinham tocado, fizemos
uma surpresa. As crianças se surpreenderam com o tamanho do “Coelho Banzé” e a
admiração por ele foi enorme.
A Roda de Conversa
Como falado anteriormente, convidamos
algumas pessoas de teatro para participarem da atividade e depois conversarmos
a respeito. Dos convidados estiveram presentes Ana e Odécio do Grupo
Osfodidário e foi muito bom tê-los na nossa ação.
Eles não viram o início do processo,
mas assistiram a apresentação e juntos (Cia Boca de Cena, Osfodidário e
Instituto dos Cegos) dialogamos sobre nossas dificuldades e vontades em
trabalhar com teatro de forma acessível a todos.
Uma das coisas apontadas foi a
facilidade que um trabalho rico em improvisação pode dar para a audiodescrição
em cena teatral, diferente de um trabalho que tem um texto a ser seguido como
no espetáculo “Quincas”, por exemplo.
No caso da Cia Boca de Cena temos um
roteiro de ação com o qual podemos brincar e interagir com o público sem perder
o fio condutor do espetáculo. O espetáculo permite uma liberdade que o teatro
clássico não oferta.
Outra questão em relação à audiodescrição
no teatro diz respeito à educação do próprio público ao que é proposto, pois
segundo Ana “o profissional que descreve a peça para a pessoa cega, precisa falar
o que está acontecendo e o público que não é cego e está no mesmo ambiente
muitas vezes se mostra incomodado com as conversas (transcrições)”.
No teatro de bonecos, nós mesmos fizemos
a audiodescrição durante todo o desenrolar da peça e as pessoas são integradas
ao contexto de forma muito espontânea.
Ana fez uma consideração
interessante, como apresentamos duas histórias, ela nos relatou que assistiu a
segunda de olhos fechados com o intuito de “assistir” o espetáculo da mesma
forma do público. De acordo com ela foi possível ver tudo, apenas em algum
momento ficou sem entender por um silêncio que aconteceu!
Este “silêncio”, nos fez refletir
mais uma vez sobre a necessidade de preenchimento sonoro. É necessário
descrever, falar algo e evitar o silenciar da ação dramática.
Em relação ao espetáculo apresentado (Colcha
de Retalhos), foi avaliado pelos professores da Instituição como ótimo, muito
rico em sons, ações dinâmicas e cotidianas que facilitaram o entendimento do
público. É importante ressaltar que, quanto mais a linguagem estiver próxima da
vida real deles, mais fácil é a absorção do conteúdo.
Dessa vez aprendemos que uma ação
como esta precisa ser organizada com tempos diferentes e damos algumas dicas:
·
O
tempo estimado para a vivência deve ser pensado de acordo com a maturidade do
público;
·
A
quantidade de pessoas para as atividades sensoriais devem ser quantificadas de
acordo com o número de mediadores;
·
Um público misto, em termos de idade, pode
provocar algumas situações delicadas entre interpretações de contextos, por
isto é importante ter controle da linguagem falada;
·
Em
caso de apresentações em instituições é bom fazer uma visita prévia e conversar
com os dirigentes, saber quem é o público, quais as dificuldades mais comuns, o
que gostam de fazer;
·
É
importante nos espetáculos explorar a sonoridade de forma ampla, fazer usos de
objetos cotidianos, etc.